Uma reflexão teológica e fraterna sobre a partida de um Irmão ao Oriente Eterno
Hoje, as colunas do meu blog não se erguem para o costumeiro debate, para a análise histórica das nossas origens ou para o combate às fantasias do misticismo popular. Hoje, este meu espaço de reflexões se reveste de acácia e cinzas. Um Irmão novo, de coração íntegro, um ser humano que transmitia alegria, e com uma caminhada tão promissora no desbaste da sua Pedra Bruta, foi chamado precocemente para a presença do Grande Arquiteto do Universo. A sua partida repentina faz estremecer a estrutura da nossa Oficina e deixa um silêncio doloroso no meio daqueles que permanecem na Oficina terrena.
Existe um equívoco perigoso, frequentemente alimentado por uma visão rígida, de que o homem de fé ou o Maçom verdadeiramente instruído deve encarar o golpe do passamento com frieza. Para alguns a ideia de que o pranto seria uma demonstração de fraqueza ou uma dúvida quanto à imortalidade da alma. Isso é uma grave distorção. Sentir o golpe da morte e estar de luto não é ausência de fé, é a prova viva de que o amor fraternal que cultivamos dentro dos nossos Templos não constitui um mero formalismo ritualístico, mas uma realidade profunda, pulsante e verdadeira.
Quando recorremos às Sagradas Escrituras em seu texto original, a teologia nos confronta com uma das cenas mais humanas e arrebatadoras do Redentor. Diante do sepulcro de seu amigo Lázaro, o Evangelho de João registra o menor e mais denso versículo da bíblia: “Jesus chorou” (João 11:35). No Grego Koiné, João não utiliza um termo genérico para o luto, mas o verbo ἐδάκρυσεν (edakrysen), uma palavra que descreve um derramamento silencioso e copioso de lágrimas de quem ama. Se o próprio Cristo, o Logos encarnado e a própria Ressurreição e a Vida, chorou a saudade e a dor da separação física de um amigo querido, por que nós calaríamos o nosso pranto e nos envergonhariamos das nossas lágrimas?
Diante do espelho da Câmara de Reflexões, ao encararmos a caveira e a ampulheta que escorre sem trégua, o homem é confrontado com a sua própria efemeridade. É impossível não ouvir o eco de Sêneca em sua obra Da Brevidade da Vida, "a vida não é curta por si mesma, mas torna-se assim pelo tempo que desperdiçamos com o que é inútil e passageiro". Para o Maçom cristão (meu caso), o espelho da finitude não é um convite ao desespero. A caveira na mesa não é o fim da história, mas o símbolo que nos lembra do Memento Mori e nos compele à vigilância espiritual. O reflexo que enxergamos frente à mortalidade expõe o contraste entre o esqueleto que um dia seremos na terra e a promessa da imortalidade em Cristo. Ele nos ensina a não gastar os nossos dias edificando para a vaidade do mundo profano, mas a empregar o esquadro da Razão e a régua do Cristo para lapidar o caráter, buscando a sabedoria de contar os nossos dias para apresentar ao Criador uma alma alinhada à eternidade.
A Maçonaria nos ensina a edificar vínculos que superam as relações superficiais do mundo profano. Na nossa tradição e na arquitetura simbólica das nossas Colunas, somos remetidos à figura da romã. As suas inúmeras sementes, dispostas em perfeita ordem, representam a coesão, a harmonia e a união indissolúvel da Família Maçônica espalhada sobre a superfície da Terra. Hoje, uma dessas sementes se apartou do todo. Ela foi recolhida pela mão soberana do Criador para repousar em um lugar infinitamente melhor, no Templo não feito por mãos humanas. Eu, particularmente, afirmo com convicção que a estrutura que fica e permanece na Oficina terrena sente e chora o espaço vazio deixado por sua ausência.
Mas eu ressalto: como salvo em Cristo, a minha dor é sempre consolada pela promessa inabalável da Eternidade. A teologia bíblica nos ensina que a morte, para o justo, não é a aniquilação do ser, mas a travessia de um portal. O apóstolo Paulo traz conforto ao declarar que “deixar este corpo é habitar com o Senhor” (2 Coríntios 5:8). A nossa esperança, enquanto cristãos, não repousa em mitos vagos ou em conceitos abstratos de imortalidade, mas na vitória histórica e concreta do Salvador sobre a sepultura na manhã da ressurreição. Nosso amado Irmão não se apagou no nada, ele apenas passou para a Loja Celestial, onde não há mais dor, nem pranto, nem sofrimento.
Para nós que permanecemos na pedreira terrena, com o Malho e o Cinzel nas mãos, prosseguindo no incessante trabalho de desbaste do nosso próprio caráter, resta a memória honrosa, a gratidão pelos momentos compartilhados e o dever sagrado de zelar pela sua família e pelo seu legado. A saudade que hoje nos corta o peito é o tributo inevitável e nobre que o amor verdadeiro paga à memória daqueles que partiram.
Hoje a Maçonaria está vestida de sombra e chora por você, meu Irmão. Que o Grande Arquiteto do Universo, o Deus de toda a consolação, envolva a sua família terrena em Seu abraço paterno, fortaleça os Irmãos da nossa Oficina e nos conceda a paz que excede todo o entendimento humano, até o dia em que reunidos sob a abóbada celestial nos abraçaremos novamente.
T∴F∴A∴
Saulo Pinheiro
M∴M∴
G∴B∴L∴S∴ Amazonas nº 02
Comentários