A Correlação entre a Maçonaria e a História dos Batistas no Brasil

Nota do Autor: O ensaio a seguir trata-se de uma Peça de Arquitetura de minha autoria, entregue em Loja. Este trabalho foi agraciado com o prêmio Pena de Bronze no ano de 2023.

A História dos Batistas no Brasil e a Maçonaria: Uma Relação Indissolúvel

A árdua luta em favor da liberdade religiosa em território nacional, em especial no Brasil Império, contou com um pilar fundamental: a Maçonaria. A história da inserção e expansão dos Batistas no Brasil deve-se, em grande parte, à influência de pastores missionários norte-americanos que também eram obreiros da Ordem.

Preciso, inevitavelmente, apresentar um breve panorama sobre a relação institucional (Batistas x Maçonaria) nos Estados Unidos, afinal, nossos primeiros missionários eram norte-americanos.

Para assegurar o rigor histórico e estatístico desta análise, a argumentação é fundamentada em dados e registros documentais. O jornal The Baptist Courier, fundado em 1869 e adotado como veículo oficial da South Carolina Baptist Convention desde 1920, trouxe em um artigo publicado em 13 de junho de 2007 dados reveladores sobre essa intersecção: de acordo com a publicação, dos 43.315 membros da Grande Loja dos Antigos Maçons Livres da Carolina do Sul (tradução livre), uma estimativa conservadora indicava que mais de 20.000 também eram membros de igrejas batistas do sul no Estado, sendo que muitos deles atuavam como líderes e pastores.

George W. Truett
George W. Truett

Ademais, a lista de autoridades é extensa, mas citarei apenas duas. George W. Truett pastoreou a Primeira Igreja Batista de Dallas (First Baptist Church, Dallas) por 47 anos (1897 – 1944), serviu como presidente da Convenção Batista do Sul (SBC) de 1927 a 1929 e presidiu a Aliança Batista Mundial. Foi exaltado ao Sublime Grau de Mestre Maçom em 1920 na Dallas Lodge No. 760, no Texas. Ele era um defensor público da fraternidade, afirmando que os princípios de moralidade e honra da Maçonaria eram essenciais para sua vida.

Joseph Samuel Murrow
Joseph Samuel Murrow

Joseph Samuel Murrow (J.S. Murrow), Reverendo e lendário missionário da Convenção Batista do Sul, dedicou sua vida ao plantio de igrejas e ao trabalho missionário entre as tribos nativo-americanas no Território Indígena a partir do final do século XIX. Ele é amplamente reconhecido como o "Pai da Maçonaria em Oklahoma".

Como tal, ajudou a fundar a Loja Maçônica de Oklahoma, nº 217, onde foi o primeiro Venerável Mestre. Posteriormente, a loja recebeu uma nova Carta Constitutiva da Grande Loja do Território Indígena em 12 de maio de 1875, passando a ser a Loja Maçônica de Oklahoma nº 04. Ele exerceu o cargo de Grand Lecturer em 1875 e 1876, e foi Venerável Mestre de sua loja mãe duas vezes (Andrew Jackson Lodge, nº 88). Foi eleito como o segundo Grão-Mestre da Grande Loja do Território Indígena e serviu por dois anos, em 1877 e 1878. Em seguida, atuou como Grande Secretário da Grande Loja do Território Indígena de 1881 até 1909, quando as Grandes Lojas dos Territórios Indígena e de Oklahoma se fundiram. No ano seguinte, ele serviu como um dos dois Grandes Secretários da Grande Loja dos Maçons Antigos, Livres e Aceitos do Estado de Oklahoma. Então, de 1910 até sua morte em 1929, ele foi Grande Secretário Emérito.

Quanto ao Brasil, a denominação Batista encontrou na Maçonaria muito mais que uma fraternidade filosófica, encontrou nela uma aliada política e um apoio logístico indispensável para se estabelecer e sobreviver quando a ordem social e o Estado eram entrelaçados ao catolicismo romano imperial.

O estabelecimento do trabalho Batista no Brasil deve sua existência primária à ação de imigrantes norte-americanos e à proteção e infraestrutura da Maçonaria local. Em 10 de setembro de 1871, o pastor e maçom norte-americano Richard Ratcliff fundou em Santa Bárbara d'Oeste, no interior de São Paulo, a Primeira Igreja Batista em solo brasileiro.

A intimidade entre a congregação batista e a fraternidade maçônica era tão profunda que, três anos depois, em 1874, parte da membresia da igreja fundou a Loja Maçônica "George Washington" na mesma localidade rural. Do total de membros fundadores desta loja maçônica, pelo menos cinco haviam sido fundadores da primeira igreja batista, destaco entre eles o pastor Robert Porter Thomas. O pastor Thomas serviu de forma interina e titular por mais de 25 anos em Santa Bárbara e na Igreja da Estação, a segunda congregação batista no Brasil, fundada em novembro de 1879 pelo pastor Elias Quillin, outro maçom ativo, demonstrando uma liderança forte e unificada entre a Ordem e a denominação.

Entre os primeiros missionários sustentados pela Junta de Missões Estrangeiras de Richmond para trabalhar exaustivamente com a população brasileira, os reverendos William Buck Bagby, Zachary Clay Taylor, Edwin H. Soper e Edward A. Puthuff, também integravam a Ordem. Eles pastoreavam congregações onde expressivos grupos de Maçons formavam a elite financeira e administrativa das igrejas locais.

Antônio Teixeira de Albuquerque
Antônio Teixeira de Albuquerque

O marco mais simbólico e historicamente documentado da aliança inquebrável entre Maçons e os batistas ocorreu em 12 de julho de 1880. E nesse ponto do meu recorte eu peço atenção ao leitor. O ex-padre católico alagoano Antônio Teixeira de Albuquerque, que havia abandonado a batina e se convertido ao protestantismo, foi convencido da doutrina e batizado pelo pastor Maçom Robert Thomas no Rio Capivari. Posteriormente, as congregações sentiram a necessidade de ordená-lo formalmente para que ele pudesse evangelizar os brasileiros em língua portuguesa. A pedido da Igreja da Estação, formou-se um concílio reunindo as duas igrejas paulistas. O evento histórico de consagração de Antônio Teixeira de Albuquerque ao ministério, o primeiro pastor batista brasileiro da história, foi realizado dentro das dependências físicas do salão da Loja Maçônica (George Washington). A cerimônia foi conduzida pelo pastor Thomas e a ata oficial, enviada à Junta de Richmond nos EUA, corroborou a normalidade com que o espaço maçônico era utilizado para os fins mais sagrados da igreja. Em outras palavras, o esforço missionário que nacionalizou a doutrina batista no país foi arquitetado e financiado por homens profundamente enraizados na Maçonaria.

Salomão Luiz Ginsburg
Salomão Luiz Ginsburg

Além disso, a figura de Salomão Luiz Ginsburg é incontornável no contexto de toda a análise. Judeu nascido na Lituânia, convertido na Inglaterra e imigrante no Brasil, Ginsburg destacou-se como um missionário desbravador e maçom ativo. A sua contribuição institucional foi substancial: fundou o Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil em 1902 e ocupou o cargo de Secretário Correspondente da Junta de Missões Nacionais da Convenção Batista Brasileira. No aspecto litúrgico, foi o responsável por editar, traduzir e compilar mais de cem hinos para o Cantor Cristão. Tais feitos consolidaram um legado de extrema relevância para a estruturação histórica da denominação no país.

Durante uma viagem ao interior baiano, com destino a Jacobina, desembarcou em Queimadas, ponto terminal da estrada de ferro. Ao dirigir-se à feira central, passou a entoar hinos em sua gaita, atraindo a atenção popular. Na ocasião, iniciou a pregação sobre a gratuidade da salvação e das bênçãos divinas. Em certo momento, seu companheiro informou que familiares do clérigo local incitavam a população, acusando o missionário de ser o anticristo. Pessoas aproximavam-se com punhais apontados em sua direção. Diante do desespero de seu parceiro, Ginsburg recorreu à oração. Nesse instante crítico, conjecturou sobre a possível presença de membros da Ordem Maçônica naquela localidade remota. Ao executar um sinal Maçônico específico, homens se aproximaram rapidamente, formaram um cerco protetor e declararam: “Viemos levá-lo para casa”. Retirado do perigo, foi alojado em uma das residências mais seguras da cidade. O episódio ilustra, sob uma perspectiva prática, a eficácia do amparo fraternal maçônico no resguardo de seus membros, mesmo em regiões inóspitas.

Conforme destaca o historiador batista Ebenézer Soares Ferreira, em sua passagem por São Fidélis (RJ), Ginsburg não apenas ajudou a fundar a primeira igreja batista daquela cidade, como também abriu a Loja Maçônica Auxílio à Virtude em 1894, oficina que, inclusive, carrega o seu nome em homenagem desde 2014. Vale um destaque histórico: o missionário foi fundador "Egreja de Christo", atual Primeira Igreja Batista de Campos.

A militância maçônica do missionário estendeu-se por todo o país, tornando-o membro de oficinas (Lojas Maçônicas) de peso como a Duke of Clarence Lodge em Salvador (BA), a Restauração Pernambucana em Recife (PE) e a Progresso em Campos (RJ). O respeito por sua trajetória fraterna e religiosa é tamanho que, na jurisdição capixaba, ele é reverenciado como o patrono da Grande Loja Maçônica Salomão Ginsburg nº 3, no Espírito Santo.

O ápice desta integração estrutural entre a Maçonaria e a liderança nacional Batista foi materializada no século XX através da figura do Pastor José de Souza Marques (1894-1974). A trajetória de Souza Marques transcende a história denominacional, sendo um documento sociológico das relações de raça, classe e religião no Brasil. Proveniente de origens extremamente humildes no subúrbio carioca, homem negro e neto direto de escravos, Souza Marques realizou sua formação em teologia pelo Seminário do Sul e formou-se em Direito. Fundador do que hoje é conhecida como Fundação Técnico-Educacional Souza Marques e ingressou na política exercendo o mandato de deputado estadual pelo campo do trabalhismo brizolista.

Sobre a vida eclesiástica, Souza Marques foi convertido através da pregação do pastor Francisco Fulgêncio Soren e consolidou-se como a figura pública mais influente da denominação. Ele pastoreou importantes igrejas, auxiliou na construção de templos em diversos bairros e foi repetidas vezes eleito presidente da Convenção dos Batistas Cariocas. Em 1935, alcançou o ápice da denominação ao ser eleito Presidente da Convenção Batista Brasileira. Cinco anos depois, em 1940, liderou a fundação da Aliança dos Pastores Batistas Brasileiros (atual Ordem dos Ministros Batistas do Brasil - OMBB), permanecendo em sua presidência por 22 anos, até 1962.

Simultaneamente, a carreira maçônica de Souza Marques era igualmente vertiginosa e pública. Iniciado na Loja Brasil n° 0953 em março de 1943, ascendeu aos mais altos postos do Grande Oriente do Brasil (GOB). Foi membro efetivo do Supremo Conselho para o Rito Escocês Antigo e Aceito (altíssima relevância) e exerceu a presidência do Supremo Tribunal de Justiça Maçônica. Historicamente, a vida do Pastor José de Souza Marques ilustra uma era dourada em que um líder negro podia transitar com suprema autoridade pelos mais altos e exclusivos escalões da presidência da convenção batista, da política trabalhista republicana e dos altos graus do REAA, simultâneamente, sem que isso fosse percebido por seus pares como uma heresia ou uma contradição dogmática.

A lista de intelectuais de peso que empunharam o malhete Maçônico no século XX continuou robusta. O reverendo David Mein, formador de gerações de pastores, reitor do Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil por quarenta anos e, também, múltiplas vezes presidente da Convenção Batista Brasileira, foi um proeminente membro e ativista da Loja Cavaleiros da Cruz n° 267 (Grande Oriente do Brasil).

Após um trabalho exaustivo expondo fatos, recorro à definição precisa de ignorância: “o estado transitório daquele a quem falta o conhecimento”. Para evidenciar a fragilidade desse desconhecimento, a lógica aristotélica nos oferece um silogismo implacável.

Ora vejamos:

Premissa Maior: As fundações históricas, a consagração do primeiro ministério e o patrimônio musical dos batistas no Brasil foram estruturados por pastores missionários que eram Maçons.

Premissa Menor: O batista crítico, desprovido de instrução histórica, afirma que a Maçonaria é uma instituição demoníaca, contrária à fé e operadora de rituais satânicos.

Conclusão Inevitável:
Logo, ao atacar a Ordem, esse mesmo acusador profere o veredito de que sua própria denominação, sua linhagem pastoral e os hinos que canta aos domingos foram erguidos sobre alicerces demoníacos.

O silogismo desmascara o contrassenso. Estaria o batista desinformado disposto a colocar a sua própria doutrina e história em xeque apenas para manter seu preconceito?

No grego do Novo Testamento (koiné), a palavra para ignorância é agnoia: uma cegueira que não precisa ser definitiva. Sendo a ignorância apenas um estado, a minha oração é para que o Senhor, a quem chamamos de a verdadeira Luz, dissipe as trevas do desconhecimento. Que Ele liberte o Seu povo da cegueira histórica e substitua o tribunal pela mesa da comunhão.


The Baptist Courier. Disponível em: https://baptistcourier.com/2007/06/masons-honorable/. Acesso em: 4 jul. 2026.

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T∴F∴A∴

Saulo Pinheiro

M∴M∴

G∴B∴L∴S∴ Amazonas nº 02

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